terça-feira, 11 de novembro de 2008
Sem entender
Agora pouco estava a assistir um pouco de televisão. Vejo uma matéria que trata do dia-a-dia das empregadas domésticas e dos mordomos. Mostra uma senhora que desde os 14 anos trabalha e mora na casa de uma mesma familia. Uma guria que trabaha de domingo a domingo e diz felizmente que o seu lazer é quando dorme. Levanto indignado e acordo meu pai. Pergunto a ele se a escravidão realmente acabou e se as pessoas acham tudo isso normal. Ele me pergunta se existe algum lugar que não seja assim. Meu pai não acredita que podemos mudar tudo isso. As vezes me acha meio maluco, sonhador. Digo a ele que existem algumas experiências avançadas como Cuba, China e Vietnam. Me retruca. Em Cuba as familias dão os filhos para o estado. Na China tem um monte de ricos e pobres. Vietnam não deu tempo pois a mesma emissora grita do quarto que existe ameaça de desemprego de trabalhadores porcausa da crise. Olho pro meu pai que também não gosta da política externa dos norte americanos e está feliz com a vitória do Obama. Digo a ele que essa é uma crise sistêmica do capitalismo e que os mesmos que sempre pregaram a presença mínima do estado na economia agora querem salvar os bancos com o dinheiro do povo. Mais uma vez, quem paga a conta são os trabahadores. Ameaçados pela crise e meio sem entender. Sem entender porque aquela guria vai trabalhar a vida inteira para ter talvez uma casa própria e se tiver muita sorte um carro. Sem entender a tristeza do palhaço que pede dinheiro no sinal. E os que catam papel no lixo do meu prédio. E as crianças da ilha das flores. Sem entender os meninos exterminados pela polícia e os animais que tem as peles arrancadas enquanto estão vivos porque é mais lucrativo. Sem entender a poluição, a degradação dos rios e os animais em extinção. Sem entender.
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