Chegamos por volta da uma hora da madrugada
daquela quarta-feira fria em Santa Terezinha de Itaipu. Éramos um grupo
pequeno, porém bastante representativo com lideranças sindicais, estudantis, e advogados.
Faziam ainda parte de nossa equipe o Coletivo Mídia Livre, responsável pela
cobertura de tudo. Na entrada da Fazenda cerca de 40 companheiros faziam
vigília para que não entrasse ninguém que não fosse autorizado pelo movimento.
Na noite anterior uma intensa movimentação de
policiais foi sentida nas ruas e hotéis de Foz do Iguaçu. A informação que
chegou era que haveria assim que o sol surgisse uma reintegração de posse,
apesar do acordo feito semanas atrás de que haveria 90 dias para negociação. Contatos
feitos com membros do governo estadual passavam a impressão de que aquela não
era uma ação pensada e planejada por aqui apenas, fazia parte de uma orientação
maior, direta do governo golpista de Michel Temer.
Apesar do estado de vigília permanente fomos
muito bem recebidos pelas lideranças do movimento que nos saudaram com um
delicioso churrasco. Naquele momento pude perceber o quanto aquela gente
sofrida e lutadora tinha disposição para resistir. Conversei com vários
integrantes do movimento, uns mais antigos outros menos. Ouvi suas histórias de
vida e de luta. Alguns já haviam passado por situações semelhantes. Outros não.
Pensei em descansar um pouco, afinal deveria
estar com toda energia para as primeiras horas de sol, mas logo desisti.
Preferi ficar ali conversando. Embora o momento devesse ser de grande tensão
pelo que estava por vir, contraditoriamente estávamos desfrutando de horas
agradáveis em companhia de pessoas humildes e gentis. Junto com alguns
companheiros do Coletivo Mídia Livre, resolvemos andar pelo acampamento
Sebastião Camargo realizar um registro daqueles momentos.
Fomos até a entrada da Fazenda Santa Maria,
onde alguns companheiros faziam guarda. Em volta de uma fogueira, alguns
contavam histórias. A maioria engraçadas. Outras de fantasmas. E outras,
engraçadas e de fantasmas. Uma moça brincava que o fantasma da fazenda estava
apaixonado por uma senhora. Havia ainda uma bonita placa esculpida numa madeira
estampando as letras: “MST”. Chegaram outros carros e pudemos assistir de outro
ângulo a chegada de alguém na fazenda.
Saímos dali e fomos observar as belezas da
fazenda, várias fotografias lindas. As horas foram passando e às 4h00 em ponto
ouvimos uma sirene. Ficamos preocupados, não havia ninguém do movimento
conosco. Na sequência fogos de artifício, imaginamos que a Polícia Militar
deveria ter se antecipado. Não era. Apenas o momento de todos acordarem e se
preparar para aquele dia. Por volta das 5h00 estavam praticamente todos
prontos.
Desci acompanhar novamente a entrada. Quando
estava tomando um chimarrão, ouvimos um grito que dizia que alguns bois tinham
se soltado e estavam descendo em nossa direção. Uma tensão que logo se aliviou
quando foi constatado que o alarme era falso. Alguns que já estavam com
bastante sono imediatamente acordaram. Pouco tempo depois, começaram a descer
os primeiros carros. Estavam a caminho da BR-277.
Os líderes do movimento haviam avaliado que era
mais prudente aguardar a chegada da Polícia Militar nas proximidades da
rodovia, tendo em vista que desta forma se daria uma visibilidade maior aos
fatos evitando ficar encurralados no interior da propriedade evitando um
confronto violento. Outra medida tomada foi escalar uma Comissão de Negociação
para auxiliar no processo de conversa com o comando da Polícia Militar com o
mesmo objetivo, de evitar confronto.
Fui um dos escalados para esta tarefa. A
primeira conversa, com a Polícia Rodoviária Federal, transcorreu com certa
tranquilidade. Passaram-nos a preocupação com a segurança das pessoas pois
tratava-se de uma rodovia de trânsito rápido. Solicitamos a eles que
intermediassem uma conversa com o comando da PM. Algum tempo depois nos falaram
que o comando da PM se dirigiria a nós para a conversa.
Nossa reivindicação era de que a conversa
ocorresse antes da chegada do comboio fortemente armado e equipado. Queríamos
que houvesse uma conversa com o comando da PM no sentido de planejar
pacificamente como se daria a resolução daquela situação, os prazos, condições
de transporte e locais para que aas famílias pudessem ser alojadas. Eram
famílias que ali estavam e assim naturalmente muitas crianças.
Surgiram os primeiros raios de sol e com eles a
Tropa de Choque com suas bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Antes
de qualquer negociação pacífica, chegaram de maneira abrupta e violenta. Tão
abrupta que me encaminhava junto aos demais membros da Comissão de Negociação
para falar com o comando da PM e fomos surpreendidos por tamanha brutalidade.
No meio dessa confusão toda, acabamos separados dos demais membros da comissão.
Ficamos, eu e dois outros companheiros impedidos
de retornar para o lado do movimento. Não nos deixavam passar. Assistimos então
de perto, o sadismo no olhar de alguns policiais. Vimos também o despreparo de
alguns agrupamentos confusos para colocar suas máscaras. Nossos olhos ardiam, a
quantidade de bombas de gás lacrimogêneo que foram arremessadas para o lado do
movimento foi excessiva. Percebemos isso quando os próprios policiais se
surpreenderam.
Ouvíamos os tiros das balas de borrachas e
ficamos muito aflitos de maneira que não conseguíamos enxergar, devido à
excessiva quantidade de fumaça das bombas, para saber se ao menos as crianças
estavam protegidas. A truculência da polícia era assustadora. Não paravam de
chegar viaturas, ônibus, uma operação grandiosa. Meu companheiro chegou a
comentar que aquela desproporção toda lembrava muito a violência com que Israel
trata o povo palestino.
Os meios de comunicação convencionais começavam
a chegar e ficavam ali também impedidos de passar. Não puderam retratar as
cenas de maior truculência e brutalidade. Queríamos estar do outro lado, a
preocupação aumentava na mesma proporção das bombas e balas. De qualquer forma
percebemos que poderia ter um lado positivo em estar daquele lado: Denunciar
através de entrevistas ao vivo o outro lado da história que até aquele momento
só tinha um narrador.
As denúncias provavelmente foram muito
importantes para impedir o pior. Um dos advogados, que havia vindo de Cascavel,
se encarregou desta tarefa e foi ouvido por praticamente todos os jornalistas
que ali se faziam presentes. Conseguimos o primeiro contato com o outro lado e
fomos informados de que aquela ali era apenas uma parte das tropas, muitos
outros policiais entraram pelo outro lado da propriedade. Era ali desenhada a
mais pura atuação do aparelho repressor do estado burguês.
Por sorte, encontramos alguns moradores
vizinhos da fazenda que queriam ir para casa e nos convidaram para atravessar
um extenso milharal. Como o companheiro advogado já havia dado todas as
entrevistas necessárias, resolvemos atravessar. Podia ser perigoso, mas era
necessário. Não podíamos ficar aguardando até a hora que a Polícia Militar
resolvesse liberar nossa passagem. Precisávamos nos juntar aos demais
companheiros e auxiliar no que fosse preciso.
Atravessamos o milharal e encontramos nosso
carro. Como uma mão lava a outra, deixamos o casal de vizinhos muito simpáticos
em sua residência e nos dirigimos rumo à Fazenda Santa Maria. Fomos parados no
caminho, dissemos que éramos da Comissão de Negociação, pediram para que
aguardássemos o comboio com vários caminhões e máquinas retroescavadeiras
prontas a derrubar os barracos. Seguimos viagem logo atrás do comboio.
Na entrada da fazenda, mais uma barreira
policial. Fizemos contato com os demais membros da comissão que já estavam
negociando com os coronéis da PM. Aguardamos um pouco e conseguimos entrar.
Pediram nossos documentos e tiraram fotos. Naquele momento, estavam organizando
um cadastro com as famílias. Víamos no rosto das pessoas um olhar de tristeza,
mas tínhamos certeza de que sabiam que aquela era apenas uma batalha e que a
luta não acabava ali.
Acompanhamos a retirada dos documentos do
movimento. O coronel ao perceber que nossa equipe estava filmando até se fez de
bonzinho, dizendo que se interessava em aprender mais sobre o movimento e
perguntou se podiam dar um livro para ele. Um drone da Polícia Científica
sobrevoava o acampamento fazendo imagens que foram depois gentilmente cedidas
para a Rede Globo. Filmava as famílias desmontando seus barracos com pressa já
que o prazo era curto.
Aguardamos a chegada da outra equipe que nos
substituiria. Ao contrário dos policiais, que tinham uma grande estrutura de
alimentação montada, estávamos com fome. No final, tenho certeza de que
vivenciar a experiência real é bem mais forte do que as mais aprofundadas
leituras. Não que essas leituras não sejam fundamentais, mas a vivência prática
complementa a teoria de maneira valiosa. Nunca esquecerei esses momentos.
Dão-nos mais energia e disposição para a luta revolucionária.
Fotos: ) Coletivo Mídia Livre (
Saiba mais: Frente Brasil Popular - Foz do Iguaçu







